... porque sei o quanto gostas de escrever. E se não o fazes, parece que rebentas. Como eu.
Ausência de tempo, ausência de lugar, ausência de espaço... sinto a tua ausência...
... porque sei o quanto precisas de estar, de sentir, de apreciar. Como eu.
Mas estás ausente... Não é de mim. Sei-o bem.
Eu sei...
Volta. Volta! Volta...
15 de março de 2016
10 de março de 2016
ERA NUM INSTANTINHO...
Caneco!, na casa ao lado estão dois jardineiros, a cortar os ramos que teimam em fugir da linha direita das sebes que servem de muro separador entre a minha casa e a casa do vizinho, com uma catana!
Para cortar um pescoço de forma rápida e limpa eram dois segundos...
Para cortar um pescoço de forma rápida e limpa eram dois segundos...
4 de março de 2016
DE REPENTE...
... aterro em Angola e "ganho" sobrinhos e afilhados quase instantaneamente!
Tu ias adorar passar algum tempo por estes lados só por um aspecto curioso: é que por cá as crianças chamam aos adultos - que não são da família e que acabam de conhecer - de "tio" ou "tia". Estamos no parque com os miúdos e a menina que quer brincar com a M. vem ter comigo e pergunta: "Tia, posso brincar com a tua filha?". Estamos na piscina e o menino que observa o P. pergunta-me: "Tia, é o teu bebé?"
Portanto, para qualquer criança que queira meter conversa comigo ou simplesmente dizer-me alguma coisa, sou a "Tia". Bem melhor e certamente mais simpático do que "Dona", "Senhora", ou "Olha aí!"
"Madrinha" já é dito pelos adolescentes. A primeira vez que me chamaram "Madrinha" foi na rua, por um rapaz que devia rondar os 15 anos. Para pedir dinheiro: "Madrinha, tem dinheiro? É para comer."
E há quem chame "Mãe" ou "Mãezinha" às senhoras mais velhas, por respeito, embora nenhuma relação de parentesco haja.
No inicio estranhei estes "tratos", mas agora acho normalíssimo. Habituei-me, pois praticamente todos os fins de semana irrompem pela minha casa dentro pelo menos duas crianças nossas vizinhas do condomínio onde moramos (e já tive cerca de 7 crianças em casa, não contando com os meus filhos!). E é "Tia, posso ir brincar com a R. e o P.?" para aqui ou "Tia, a M. pode ir a minha casa lanchar?" para acolá...
"Madrinha" ouço menos vezes porque os adolescentes são mais reservados no que ao dirigir a palavra a desconhecidos diz respeito. Mas as crianças são uma verdadeira doçura no trato e de imediato parece que nos conhecemos desde sempre. Mas sempre num contexto controlado (pais presentes, escola ou vizinhos do mesmo prédio ou condomínio) e mostrando sempre respeito pelo facto de sermos os mais velhos.
Aliás, por estes lados os mais velhos são altamente respeitados: quem chega a uma idade avançada é tida como uma pessoa com grande sabedoria com quem aprender e a quem admirar. Os conselhos sobre o mais importante da vida são solicitados a eles; maus tratos são severamente condenados socialmente; os mais novos cuidam financeiramente dos mais velhos caso estes não possuam os meios para o fazer; e mesmo que possuam os meios, está socialmente instituído que os mais novos devem cuidar dos mais velhos - porque a idade é um posto e porque se considera que se deve preservar a sua experiência de vida e os conhecimentos que podem passar aos mais novos. E não é isto maravilhoso? E não deveria ser assim em todo o mundo?
2 de março de 2016
HÁ COISAS QUE AS CRIANÇAS FAZEM EM QUALQUER PARTE DO MUNDO...
... como por exemplo salientar a diferença do outro de forma menos positiva.
E as razões para o fazerem são múltiplas, mais complexas do que se pode pensar mas - disso tenho a certeza - bem diferentes e menos profundas do que as que levam os adultos a fazer exactamente a mesma coisa.
Porque te falo disto? Por causa uma situação ocorrida na passada segunda feira com a M. e um colega de turma, no recreio da escola:
A M. foi chamada à atenção pela professora na aula. No recreio, um colega resolve gozar com ela a propósito desse episódio na aula, ao ponto de ela começar a chorar. A M. diz-lhe para ele parar de fazer aquilo caso contrário faz queixa a um vigilante do recreio, ao que o colega lhe responde: "Cala-te! mas é, que tu vens de Portugal!"
Bem, se fosse um episódio entre adultos com certeza a frase teria sido outra. O facto de esta criança ter dito aquela frase e não outra "mais pesada" revela, para mim, que há já um trabalho em termos de transmissão de valores e princípios feito em casa. Pelo menos quero acreditar que sim...
A escola onde a M. estuda neste momento em Angola é um colégio internacional, onde há alunos angolanos, portugueses, russos, chineses, sul-.africanos, sérvios, brasileiros, moçambicanos... e cujo projecto estrutural da escola inclui a integração dos conhecimentos das diferentes culturas e costumes, numa lógica de enriquecimento social, mental, emocional e académico de todos os alunos.
Voltando a este episódio com a M.: ela ficou calada depois de ter ouvido aquela frase. Disse-me que não percebeu exactamente o que é que o colega quis dizer com aquilo, mas que se sentiu triste depois de o ter ouvido. Respiro fundo. E digo-lhe apenas o seguinte "Olha M., esse menino apenas quis implicar contigo porque sabe que não nasceste em Angola. Mas onde nasceste não interessa nada, porque neste momento, tu és de Angola porque onde moras, onde tens a tua casa, é em Angola. Neste momento pertences aqui e este é o teu país tanto como é o país desse menino. Da próxima vez que ele te voltar a dizer essa frase podes responder-lhe exactamente isso: que és de Angola, porque moras cá tal como ele."
Tenho a certeza de que a M. não entendeu a amplitude da frase "Cala-te! mas é, que tu vens de Portugal!". Sei que por minutos ela se sentiu deslocada, sem sentimento de pertença. Daí a tristeza.
Tenho igualmente a certeza de que aquele menino não entendeu o total significado do que disse. Sei que ele quis implicar com uma colega e como aparentemente ela não estava a demonstrar a reacção que ele pretendia, recorreu a uma diferença entre ele e ela (neste caso a nacionalidade e cor da pele, mas podia ser a religião, etnia, não ter uma perna, ser gago, etc....), transformou-a em algo menos positivo e arremessou-a, como se de uma pedra se tratasse.
Porque é ainda uma criança, não tem para já a capacidade de ser empático com os outros devidamente desenvolvida, caso contrário, no segundo seguinte a ter proferido aquela frase, sentiria o coração apertado e uma pequena nuvem negra a pairar sobre o mesmo, como aconteceu com o coração da M.. E de certeza não o voltaria a repetir.
Cabe a nós adultos desenvolver nas crianças essa empatia, essa capacidade de se colocarem no lugar do outro, para que melhor entendam as consequências das suas acções. Acredito que essa é uma de algumas das ferramentas fundamentais para educar adultos conscientes do seu papel num mundo que se quer de paz, de integração e de saudável convivência em comunidade e em sociedade. Cá por casa, vamos fazendo a nossa parte.
(a meio do relato da M. sobre este episódio da escola, a irmã começa a chorar. Pergunto-lhe o que se passa, responde-me que se lembrou da avó materna, a minha mãe. Porque a avó - branquinha de pele e de olhos verde-amendoados, tinha dupla nacionalidade portuguesa-angolana, uma vez que era filha de pais portugueses mas nasceu em 1953 em Luanda - Angola e aqui viveu até aos seus 8 anos, num local não muito longe de onde moramos actualmente. E a R. chorava porque sentiu que para além da sua irmã, também a sua avó tinha sido magoada. A R. percebeu bem melhor o significado daquela frase proferida pelo menino. Daí a nuvem negra no seu coração ser bem maior...)
24 de fevereiro de 2016
Se o Feiticeiro de Oz pudesse tele-transportar-nos...
Sabes, no outro dia partiu-se-me o coração...
Perante uma saída de casa para umas meras compras e o meu aviso a toda a criançada para se prepararem para sair, o P. atira-me com esta: "Mamã, vamos a casa dos avós, vamos, vamos,vamos?!?!", diz ele todo contente perante a perspectiva de os rever.
Ele não sabe. Ainda não sabe. Ainda não tem a noção de que estamos a 8.690,2 kms de distância da casa dos avós. Não tem a noção de que, mesmo que saíssemos naquele instante em direcção a casa dos avós, demoraria pelo menos 10 horas a lá chegar. Não tem a noção de que estamos longe, muito, muito longe da casa dos avós.
"Toto, I've a feeling we're not in Kansas anymore.", disse a Dorothy.
Meu doce P., tenho a impressão de que já não estamos em Portugal ...
23 de fevereiro de 2016
DICIONÁRIO PORTUGUÊS-ANGOLANO
Créditos: www.angolamonitor.co.ao
Lembro-me sempre de ti quando me deparo com palavras angolanas novas! Aprender novas palavras e integrar novas linguagens no teu cérebro é de certeza como brincadeira de crianças, mas para mim é um exercício de tentativa-erro lento...
Mas com o tempo passado por estes lados vamos aprendendo cada vez mais palavras novas e, na minha opinião, super engraçadas. É claro que no primeiro contacto não entendíamos patavina sobre o que queriam dizer. O significado de algumas palavras o marido já sabia, o de outras chegamos lá pelo contexto e outras ainda só com pesquisa em casa ficamos a perceber o que queriam dizer. A cara de parva que já fiz por não "apanhar uma" do que me estava a ser dito tem os seus dias contados.
Pode ser que um dia se consiga ter por casa um diálogo parecido com este:
- Meninos, desliguem a tape e venham matabichar! Já olharam para o ulá? Vão chegar atrasados e olhem que o ruca não tem asas...
- Vai malembe, estamos indo, ya? Mamã, sabes o que eu queria ter no meu aniversário? Uma grande boda e uma jinga!
- Xii, anduta pedir! Sabes que para isso que pedes é preciso gastar cumbú! Presta atenção a esta ocipama: és apenas uma candengue, mas para evitares makas na tua vida tens de aprender que o cumbú é difícil de ganhar e só bumbando se consegue. Quem for imbumbável terá fobado e mesmo que tenha muito cambas para o ajudar, terá sempre de se esforçar para ter as coisas que quer na vida.
- Então e não basta ir ao multicaixa?
- É preciso que tenhas cumbú na conta bancária.
- Pois... então e se eu for à loja e pedir uma jinga emprestada?
- Não funciona assim. Se quiseres levar uma coisa sem pagar ficas com uma kilapi e se não pagares essa kilapi a magala aparece e podes ir para a quionga!
- Isso é que era quitute! Nem pensar, não vou fazer isso. Não vou jajar, fiquei panco por aquela jinga que vi na loja! Mas há coisas mais importantes, como ter pitéu na mesa para todos.
- Ya! Assim é que se fala!
- Hum... e se me desses uma gasosa por eu pôr o lixo lá fora? Assim juntava dinheiro mais rapidamente para comprar o que quero...
- E se levasses uma mbenda no mataco pelo atrevimento? Fazes o que a mãe te pede e mais nada! Ya?!
- Ya...
(Tradução:
- Meninos, desliguem a televisão e venham tomar o pequeno-almoço! Já olharam para o relógio? Vão chegar atrasados e olhem que o carro não tem asas...
- Vai com calma, estamos a ir, está bem? Mamã, sabes o que eu queria ter no meu aniversário? Uma grande festa e uma bicicleta!
- Epá, pedir é fácil! Sabes que para isso que pedes é preciso gastar dinheiro! Presta atenção a esta lição: és apenas uma criança, mas para evitares problemas e confusões na tua vida tens de aprender que o dinheiro é difícil de ganhar e só trabalhando se consegue ter. Quem não quiser trabalhar terá fome e mesmo que tenha muito amigos para o ajudar, terá sempre de se esforçar para ter as coisas que quer na vida.
- Então e não basta ir ao multibanco?
- É preciso que tenhas dinheiro na conta bancária.
- Pois... então e se eu for à loja e pedir uma bicicleta emprestada?
- Não funciona assim. Se quiseres levar uma coisa sem pagar ficas com uma dívida monetária e se não pagares essa dívida a policia aparece e podes ir para a cadeia!
- Isso é que era doce! Nem pensar, não vou fazer isso. Não vou mentir, fiquei apaixonada por aquela bicicleta que vi na loja! Mas há coisas mais importantes, como ter comida na mesa para todos.
- Sim senhora, assim é que se fala!
- Hum... e se me desses uma gorjeta por eu pôr o lixo lá fora? Assim juntava dinheiro mais rapidamente para comprar o que quero...
- E se levasses uma chapada no rabo pelo atrevimento? Fazes o que a mãe te pede e mais nada! Sim?
- Sim...
E para saber mais sobre o dicionário angolano, deita uma espreitadela aqui. Vale a pena :)
19 de fevereiro de 2016
SOMOS UMAS BATATAS!
Desenho feito pelo P. retratando a sua família
Admirem este primeiro desenho que o meu filho fez representando-se a si, às irmãs e os seus pais.
Estão a ver-nos? Somos aqueles desenhos roxos.
Todo orgulhoso, o P. explicou quem é quem: ele é o desenho roxo mais pequeno, as irmã mais nova é o desenho maior logo a seguir e assim por diante, até chegar ao desenho da mãe, o maior. "Então o pai é mais pequeno que a mãe?!" exclama o papá. A irmã mais velha de imediato explica: "a mamã é mais alta que tu por isso o P. desenhou bem, está certo!"
E pronto, é isto. Aqui estamos nós. Somos umas batatas...
(e a mamã é mais alta que o papá...)
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