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11 de dezembro de 2016

MÃE AFRICANA VS MÃE EUROPEIA E DIVAGAÇÕES

Sabes, quando aterrei em Angola em Setembro de 2015 tinha na minha cabeça uma data de ideias pré-concebidas sobre africanos, africanas, sobre o seu modo de vida, a sua cultura, as suas crenças, sobre o que priorizam e o que consideram supérfulo, sobre como vivem a familia, o casamento, os filhos, os pais, a sua ideia de comunidade, as suas ambições profissionais e pessoais.

Ao fim de um ano e 3 meses a viver em Luanda e a conviver diariamente com angolanos - adultos e crianças - concluo que muitas das minhas ideias pré-feitas não tinham qualquer fundamento lógico. Outras tinham fundamento mas pelas razões erradas. Outras ainda, continuo a tentar perceber onde raio é que fui buscar lógica para justificar essa bagagem moral que tinha na minha cabeça, porque não se enquadra minimamente na realidade, na realidade que observo, in loco, todos os dias.

Sei que há angolanos, de gerações antigas e mais jovens, que não gostam da presença do português em Angola. E compreende-se perfeitamente: apesar de eu já ter ouvido da boca de algumas pessoas - portuguesas pois claro - que no tempo anterior a 1975 é que os nativos tinham uma vida melhor, a realidade é que isso era válido apenas para uma percentagem muito infima da população angolana. A restante população não tinha essa oportunidade.

Sei também que há angolanos para quem a presença do português é bem-vinda, pois traz saber-saber e saber-fazer. E isso vale muito para ajudar o País a crescer.

E depois há os angolanos que superficialmente não ligam nada se eu sou branca, amarela ou rosa às pintinhas. Saliento: superficialmente. Pois eu, copo de leite , nunca passo despercebida. O que já não me deixa muito desconfortável. 
(não muito, só um pouquinho...)

Desde que aterrei em Angola também assumi logo no inicio que eu tinha uma responsabilidade: demonstrar, através dos meus actos, da minha postura, dos meus principios e da minha educação, que não represento o que de mau se fez no passado pelos nossos antepassados portugueses.

E podes perguntar-me se isso será justo para comigo ou se cabe a mim fazê-lo. Eu respondo-te que sim. 
É justo porque eu tenho essa herança assumida na minha pele e na minha nacionalidade de nascimento. E cabe-me fazê-lo, assim como acho que cabe a todos os outros como eu que estão nesta linda terra, nesta maravilhosa e fervilhante terra que os acolheu - que apesar de tudo os acolhe sempre! - para mudarmos ideias pré-concebidas: as minhas, as dos meus filhos, as do angolano que comigo se cruza no supermercado, do filho dele, da mamã(*) que me vende a fruta na rua, do companheiro de carteira da minha filha do meio, dos portugueses mais novos do que eu que aqui estão a trabalhar mas que vivem numa redoma, fechados nos condominios onde vivem e a frequentar socialmente sitios onde apenas vão maioritariamente outros portugueses... enfim, mudar a partir da base algo que é estruturante e corrosivo em toda a sociedade.

E não preciso de fazer nada de especial para algo tão profundo. Apenas tenho de ser eu. Apenas tenho de agir normalmente no meu dia-a-dia com a educação, gentileza e valores morais que possuo. Ver a pessoa e não a raça. Ver o coração e não a cor da pele. Só isso. Fácil, não?

Dou-me conta que ainda não te falei sobre o que me trouxe aqui, o titulo deste post. 

Ou se calhar tenho falado nele desde o principio: é que desde que aterrei em Angola, uma das ideias pré-concebidas que tinha na minha cabeça é que a forma de amar de uma mãe africana continha diferenças substanciais em relação à forma de amar da mãe europeia. Errado, totalmente errado. 

Os cuidados de saúde tal como os conhecemos na Europa são infelizmente uma miragem para muitas mães angolanas. Desde que conheço essa realidade de perto, nunca mais me queixei do tempo de espera num centro de saúde ou num hospital em Portugal. Porque apesar da espera, eu tenho acesso a profissionais de saude, a medicamentos - alguns deles a preços baixos - e a condições sanitárias boas. Em Angola isso ainda está a ser construido para todos usufruirem.

Mas estas diferenças fundamentais não afectam em nada a forma como uma mãe angolana ama os seus filhos. Porque ela ama-os incondicionalmente como eu amo os meus filhos, ela mima-os tal e qual como eu mimo os meus, ela preocupa-se com o seu futuro tal e qual como eu me preocupo com o futuro dos meus.

Angola tem-me ensinado muito, não me canso de o dizer. Sei que tudo o que eu possa deixar como contributo nesta terra, vou receber dela o triplo, no minimo: crescimento emocional, maturidade, conhecimento, enriquecimento cultural... e mais pedacinhos do meu coração oferecidos.

Acho que já te disse isto e de mãe para mãe: irias gostar tanto de visitar esta terra...

(*) mamã: mulher já na casa dos 50 anos, normalmente já com filhos e netos. Respeitada pela sua idade e posição na familia. Chama-se "Mamã" por ser a cuidadora da familia.

2 de fevereiro de 2016

BABAS E BEIJOQUICES

Créditos: www.lovethesepics.com

O meu mais novo ultimamente anda um beijoqueiro! Será por ter 3 anos e ser rapaz?! Os teus rapazes passaram por esta fase? Agora, a toda a hora, o P. corre para mim e quer dar-me um beijinho na face. Outras vezes é um beijinho na face, outro no nariz, outro no queixo e por ultimo outro na testa. Exactamente por esta ordem.

Quando lhe ralho porque desobedeceu a uma ordem ou fez uma asneira propositadamente, põe o olhar "Gato das Botas do Shrek" e dá-me um beijinho. Para me engraxar e amolecer.
(e consegue o seu intento...)

Outras vezes teima que seja eu a vesti-lo e não o pai, mas como os adultos insistem na distribuição de tarefas, tem de me dar um beijinho antes de o pai o vestir.

Mas ontem foi "O" dia da beijoquice! Depois de um primeiro dia de infantário com choro matinal, o final da tarde foi radicalmente diferente: assim que pôs os olhos em mim e no pai, correu na nossa direcção, subiu para o meu colo e deu-me beijos na face até mais não, com uma alegria tal que parecia que tinha estado longe de nós durante um mês! Foram tantos os beijos que a dada altura as minhas bochechas ostentavam baba! Mas não me importei nada com isso. 

Nunca me soube tão bem ter o meu filho beijoqueiro nos braços como ontem...

13 de janeiro de 2016

ENXOVAIS E PREOCUPAÇÕES...

Quando cheguei a Luanda, uma das primeiras imagens que vi e que me marcou o coração foi o das mães angolanas a "zungar", ou seja, a vender na rua todo o tipo de mercadorias, que carregam na cabeça, com um filho às costas, atado por um pano que amarram na frente à altura do peito, debaixo de um sol escaldante. Ainda mais marcante é a imagem de uma destas mães, carregando o produto a vender na cabeça, com o filho às costas e grávidas. Como é possível eu queixar-me da dor no braço pela meia-hora de colo que dei ao mais pequeno? Não, não me atrevo!

Em determinadas formas de pensar a maternidade e preparar o nascimento do bebé, há diferenças abismais entre a mãe portuguesa (realidade que conheço, ou seja... eu!) e a mãe angolana:

A mãe portuguesa:
. antes do bebé nascer, compra as roupas fofas para levar para a maternidade e para os seis meses seguintes, pelo menos. Conta com o facto de vir a ter mais roupa quando o bebé nascer, advinda dos presentes oferecidos por quem a irá visitar para conhecer o petiz;
. pesquisa afincadamente na internet sobre qual o melhor carrinho de mão para levar o bebé a passear, qual a cadeira-auto para recém-nascido mais segura, qual a marca de detergente para a roupa mais hipoalergénica do mercado, qual a marca de carrinho de mão mais trendy e qual a melhor forma de ter o carrinho, a alcofa e a cadeira de carro dessa marca ao menor preço possível. Ou oferecido...;
. perscruta no espelho qual o melhor ângulo para não parecer um bisonte (sem ofensa para os bisontes...) mas sim uma grávida fofa e que "nem engordou nadinha, só tem barriga";
. lê todos os artigos que oferecem dicas sobre como ser uma boa mãe, tem pelo menos um livro sobre como cuidar de bebés e absorve dogmaticamente os conselhos dados pela enfermeira do centro de saúde no curso de maternidade e pela enfermeira/técnica de saúde do curso de maternidade oferecido pela loja de roupa e acessórios para bebé - mesmo que entre ambos alguns sejam contraditórios...;
. se mãe de primeira viagem, deposita todos os seus sonhos neste bebé; todas as ansiedades e preocupações sobre se será capaz de ser uma boa mãe, também;
. descobre sistemas de segurança para fixar cadeiras-auto agregados aos cintos de segurança do carro que desconhecia!
. constata que mais brinquedos não significam mais felicidade para os seus filhos.

A mãe angolana:
. antes do bebé nascer, confia que os familiares e vizinhos irão oferecer um enxoval de roupa para o recém-nascido. E oferecem...;
. tem os seus filhos no hospital mais próximo ou na própria casa (grande parte das vezes é em casa);
. ainda grávida, já possui muita informação sobre os cuidados básicos a dar a um bebé, pois muito provavelmente ajudou a sua mãe a criar os seus irmãos mais novos; muitas vezes foi ela a "mãe" quando era ainda criança;
. não tem carrinhos de mão para passear o bebé, isso são "mariquices"; o meio de transporte usual do bebé ou criança de colo é mesmo nas suas costas, seguros por um pedaço de tecido que aperta com um nó à frente, achatando completamente as suas glândulas mamárias;
. se mãe de primeira viagem, sabe que dificilmente conseguirá cuidar e fazer tudo bem sozinha; a ajuda - e por vezes irritantes opinanços sobre a forma mais correcta de fazer as coisas - dos seus ascendentes, sogra incluída, é algo adquirido;
. descobre que é uma verdadeira guerreira cheia de força e coragem, pois num país onde ainda é difícil ter, para grande parte da população, a satisfação das necessidades básicas que conferem o estatuto de uma vida digna, ela não desiste; e dia após dia vai à luta para que no final da tarde haja comida na mesa para a sua prole;
. constata que mais brinquedos não significam mais felicidade para os seus filhos, pois a felicidade por este lados encontra-se noutras coisas, como ser saudável, ter uma boa alimentação, poder andar descalço na terra seca, comer frutos tropicais maravilhosamente maduros e doces à tarde que foram colhidos de manhã ou ir à escola para saber ler, escrever e quem sabe no futuro ter uma profissão digna.

Dou por mim a relativizar certas preocupações minhas, quando olho para estas mães que trabalham mais de 12 horas por dia, sob o sol escaldante e com o filho às costas.

Dou por mim a relativizar certas exigências dos meus filhos quando olho para estes filhos a quem o facto de pouco terem não lhes tirar o sorriso aberto e sincero.

Dou por mim a pensar em como sou uma privilegiada, por tudo. E em como estas mães são para mim uma inspiração...

21 de dezembro de 2015

MÃE CAPACHO...

Ser mãe é maravilhoso, já sabemos!

Mas conheces aquela sensação que por vezes sentimos, de sermos meros capachos dos nossos filhos porque parece que só limpamos, arrumamos, cozinhamos e tornamos a limpar o que eles sujam, desarrumam, comem e voltam a sujar?

Pois...

À poucos dias atrás essa sensação bateu-me violentamente como uma forte chapada, quando o P., bem refastelado no meu colo, tira um burrié do nariz. Sim, um burrié! E fica a olhar para o dedo dele, onde o burrié está colado. E consigo ver o balãozinho do diálogo interno a pairar acima da cabeça dele: 
- "huummm, onde é que vou limpar o meu dedo para tirar esta coisa pegajosa e nojenta que nele está pousada? AH! JÁ SEI!"

O meu adorado filho olha para mim com o ar mais doce que tem. E espeta o dedo dele na minha cara...

(grrrrrrrr....... adoro-te tanto meu querido filho... grrrrrrrr)